Existem momentos em que o desejo de servir encontra uma pergunta desconfortável: “Como posso discipular alguém se eu mesmo ainda tenho tantas limitações?”
No episódio 22 do The Waves Podcast, essa tensão atravessa a conversa entre Maya e Mari Ventura. A partir de sua caminhada na Jocum Sertão, de experiências discipulando pessoas e de sua atual atuação na liderança da Jocum Casa, Mari apresenta uma perspectiva que tira um peso importante das costas de quem deseja caminhar com outros: discipulado não é ocupar o lugar do redentor.
É apontar para ele.
A afirmação parece simples, mas muda profundamente a forma como enxergamos nossa capacidade, nossas fraquezas e até os resultados que esperamos produzir na vida de outra pessoa.
Você não precisa ser a resposta para a vida de alguém
Mari conta que, no começo de sua experiência, sua própria história tinha um espaço grande demais em suas conversas.
Quando encontrava alguém enfrentando situações parecidas com aquelas que ela já havia vivido, era natural usar sua experiência como referência. Existia identificação, acolhimento e empatia.
Mas, com o tempo, ela percebeu um problema.
“A sua história não redime ninguém.”
Nossa experiência pode ajudar alguém a perceber que não está sozinho. Ela pode abrir uma conversa e gerar confiança. O problema começa quando nossa trajetória deixa de ser uma ponte e passa a ser o fundamento.
Mari descreve o discipulado utilizando a imagem dos amigos que levam um homem até Jesus. Eles fazem esforço. Carregam, sobem, descem e colocam aquela pessoa diante dele.
Mas eles não são Jesus.
Essa diferença traz responsabilidade e, ao mesmo tempo, leveza.
Quem discipula continua se esforçando, ouvindo, ensinando e permanecendo perto. O que não precisa fazer é assumir a culpa por cada escolha que o outro fizer depois disso.
Para quem se sente incapaz, talvez exista aqui uma mudança importante de perspectiva: sua responsabilidade não é ser suficiente para outra pessoa. Sua responsabilidade é continuar apontando para Jesus.
Fraqueza não é uma realidade apenas de quem recebe ajuda
Quando Maia pergunta sobre pessoas que se sentem fracas ou incapazes, Mari começa por uma afirmação direta:
“A chave do rolê é entender que todos nós somos fracos.”
Esse ponto muda a dinâmica do discipulado.
Não existe, de um lado, uma pessoa completamente pronta e, do outro, alguém cheio de problemas esperando ser consertado.
Os dois estão em uma jornada.
Para Mari, até pode existir algo positivo quando alguém consegue reconhecer e verbalizar que está fraco. Existe consciência de que precisa de ajuda.
O desafio também está em quem discipula.
Às vezes, nossa ansiedade por resultados faz com que desejemos enxergar frutos antes da hora. Queremos perceber rapidamente que a conversa funcionou, que a pessoa mudou e que aquilo que ensinamos produziu algum resultado.
Mas Mari lembra que Jesus não demonstrava essa pressa com seus discípulos.
“A gente caminha com esse irmão sem pressa.”
Isso não significa romantizar a estagnação.
Mari também faz uma distinção importante entre respeitar processos e transformar a ideia de “estar em processo” em justificativa permanente para não amadurecer.
Existe paciência, mas existe direção. Existe tempo, mas existe crescimento.
Discipulado é uma jornada de maturação.
Discipular também é olhar para a pessoa por inteiro
Outro ponto importante da conversa aparece quando Mari fala sobre o ser humano de maneira integral.
Alguém não é formado apenas por aquilo que chamamos de “vida espiritual”. Existem emoções, corpo, intelecto, hábitos, limites e circunstâncias que também fazem parte daquela história.
Por isso, caminhar com alguém exige escuta.
Mari cita situações muito práticas: sono, uso do celular, questões físicas e necessidades que talvez exijam outros tipos de cuidado.
Isso significa que nem todo problema deve receber automaticamente a mesma explicação.
Em alguns momentos, a caminhada pode envolver ajudar alguém a perceber hábitos que precisam mudar. Em outros, pode ser necessário reconhecer que aquela pessoa precisa procurar um cuidado específico.
Essa compreensão também protege quem discipula da necessidade de ter resposta para tudo.
E existe outro limite importante: quem cuida também se cansa.
Mari fala sobre a necessidade de reconhecer quando já não temos algo para oferecer naquela caminhada e direcionar a pessoa para alguém que possa continuar ajudando.
Para ela, uma comunicação íntegra faz parte do próprio cuidado.
Esse princípio se torna ainda mais importante quando a conversa passa pelas pessoas que foram feridas dentro de experiências de discipulado.
Mari chama atenção para o uso irresponsável daquilo que alguém compartilhou em confiança. Falar demais, expor histórias e transformar informações particulares em assunto para outras pessoas pode produzir feridas profundas.
Por isso, discipulado não exige apenas intenção de ajudar. Exige responsabilidade.
Deus trabalha através de pessoas que também estão amadurecendo
Talvez uma das frases mais importantes do episódio seja também uma das mais desconfortáveis:
“Deus conta com pessoas quebradas para o cumprimento da sua grande comissão.”
Quem discipula pode errar. Quem lidera pode errar. Quem está servindo em missões continua em uma jornada de transformação.
Reconhecer isso não diminui a responsabilidade. Pelo contrário: cria espaço para arrependimento, pedido de perdão e reconciliação quando alguma coisa dá errado.
Mari lembra que podemos ferir alguém pela imaturidade, pela pressa ou pela ansiedade de ter uma resposta.
Nesses momentos, maturidade também significa voltar. Pedir perdão. Reconhecer o erro. Continuar caminhando.
Talvez, então, a pergunta “E quando eu não me sinto capaz?” não precise ser respondida com uma tentativa de provar que somos fortes o suficiente.
O episódio aponta para outro caminho.
Somos pessoas em processo caminhando com outras pessoas em processo.
Nossa capacidade não está em sermos a resposta definitiva para alguém, mas em testemunhar Jesus dentro dessa caminhada.
Discipulado é presença, responsabilidade e direção
Ao falar sobre sua atual experiência na liderança da Jocum Casa, Mari resume sua compreensão de liderança com uma frase:
“Para mim, liderança hoje é testemunhar Cristo na sua integralidade.”
No servir. No corrigir. No relacionamento. No cotidiano.
Talvez esse seja também um bom resumo do discipulado apresentado durante toda a conversa.
Você não precisa ocupar o lugar de Jesus na vida de alguém. Não precisa acelerar o processo do outro e não precisa esconder suas próprias limitações para parecer preparado.
Mas pode caminhar. Pode ouvir. Pode servir. Pode reconhecer erros. Pode aprender.
E pode continuar apontando para aquele que realmente ocupa o centro da história.
Se essa conversa despertou algo em você, assista ao episódio completo no YouTube e aprofunde essa reflexão.
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