Interculturalidade: como fazer a ponte entre culturas

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No episódio 18 do The Waves Podcast, Giane Brunetti compartilha experiências profundas sobre interculturalidade e missão, mostrando como o encontro com outras culturas transforma não apenas a forma como comunicamos o Evangelho, mas também a maneira como enxergamos o mundo e a nós mesmos.

Ao longo da conversa, Giane destaca que cultura não é apenas um conjunto de costumes, mas um “mapa de regras não faladas” que influencia diretamente nossa percepção da realidade. Quando entramos em contato com outras culturas, esse mapa é desafiado, e somos convidados a aprender, desaprender e reaprender.

Hoje, servindo com seu esposo na liderança da base da Jocum na Guiné-Bissau, Giane carrega aprendizados acumulados desde suas primeiras experiências interculturais. E uma das primeiras lições parece simples: observar.

“Você precisa observar. Primeiro observa.”

Essa postura atravessa toda a conversa. Antes de tentar ensinar, comunicar ou transformar alguma coisa, existe um povo que precisa ser conhecido.

Antes de entender o outro, reconheça sua própria cultura

Quando Giane chegou aos Estados Unidos aos 17 anos, começou a perceber diferenças até em situações que pareciam pequenas.

A forma de cozinhar, de se vestir, de se relacionar e de organizar a rotina mostrava que muitas das coisas que ela considerava naturais eram, na realidade, parte da cultura em que havia crescido.

Essa descoberta se tornou um princípio:

“Até você ser exposto a outra cultura, você não sabe a cultura que você tem.”

Giane define cultura como uma espécie de mapa de regras que aprendemos e que nem sempre são verbalizadas, mas são esperadas dentro de uma sociedade.

Carregamos esse mapa por onde vamos.

Ele influencia aquilo que consideramos importante, correto, estranho ou normal. E justamente por isso, entrar em outra cultura pode confrontar nossas certezas.

Durante o episódio, Giane também fala sobre o risco do etnocentrismo: aquela tendência de acreditar, mesmo que silenciosamente, que o nosso jeito é um pouco melhor.

Na missão intercultural, perceber isso é fundamental.

Porque servir alguém não pode significar simplesmente reproduzir nossa cultura na vida dessa pessoa.

Fazer a ponte começa ouvindo e observando

Uma experiência na Alemanha ajuda Giane a explicar esse princípio.

Ao chegar a uma casa com costumes diferentes dos seus, ela percebeu como as mulheres se vestiam e como aquele grupo se comportava. Em vez de insistir em suas próprias preferências, decidiu observar e se adaptar àquele ambiente enquanto isso não entrasse em conflito com aquilo que cria.

Essa atitude não era apenas uma mudança externa. Era uma forma de demonstrar respeito.

Ao longo de suas experiências, esse aprendizado continuou: observar como as pessoas vivem, como comem, como se relacionam e o que valorizam.

Na Guiné-Bissau, por exemplo, Giane percebeu um valor muito forte nos relacionamentos, na coletividade, no respeito aos mais velhos e na generosidade.

Uma das histórias mais marcantes aconteceu quando uma mulher chamada Minta chegou à sua casa com três bananas para o filho de Giane.

Sabendo das limitações de recursos daquela família, Giane ficou constrangida.

Ela percebeu que sua própria ideia de generosidade ainda estava relacionada àquilo que sobrava. A experiência levantou outra pergunta: seria possível tirar do que era seu para compartilhar com alguém?

A cultura que ela havia ido servir também estava ensinando algo a ela.

Essa troca talvez seja uma das imagens mais fortes da interculturalidade: não chegar apenas para oferecer respostas, mas também disposto a aprender.

Comunicar o Evangelho exige conhecer quem está ouvindo

Essa compreensão se torna ainda mais importante quando o assunto é a comunicação do Evangelho.

Giane explica que um dos grandes erros é imaginar que a pessoa de outra cultura possui exatamente as mesmas referências que nós.

“O grande erro é pensar: o outro sabe exatamente o que eu sei. E ele pensa como eu penso.”

Em alguns grupos da Guiné-Bissau, por exemplo, Jesus já aparece dentro de determinadas referências religiosas. Em outros, muitas pessoas nunca ouviram falar dele.

Isso muda a maneira como uma conversa começa.

Para Giane, o princípio é aproximar a mensagem da realidade que aquele povo já conhece, como ela observa no exemplo de Paulo ao se comunicar com públicos diferentes.

Não se trata de mudar a mensagem para agradar uma cultura, mas de reconhecer que comunicar exige entender quem está ouvindo.

Em contextos diferentes, as perguntas também são diferentes.

Giane comenta que, ao preparar equipes para contextos budistas, procura considerar questões ligadas ao medo. Em contextos ocidentais, ela aponta outras dores, como culpa, vazio ou solidão.

A ponte é construída quando a pessoa deixa de comunicar apenas da forma que faz sentido para si e começa a pensar na forma como o outro poderá compreender.

Quando a Palavra chega à língua do coração

Um dos exemplos mais concretos compartilhados no episódio aconteceu na própria Guiné-Bissau.

Durante anos, Giane havia ouvido a importância de tornar a Palavra acessível na língua do povo. Mas foi quando sua equipe começou a utilizar pequenos cartões de memória com conteúdo nas línguas locais que ela percebeu com mais clareza o peso desse princípio.

Pessoas que antes não demonstravam interesse passavam a prestar atenção ao ouvir uma mensagem em sua própria língua.

Em uma cultura fortemente oral, o áudio também fazia sentido para a maneira como aquele povo já transmitia histórias.

Em vez de tentar substituir a cultura local pela forma como a equipe estava acostumada a comunicar, começaram a utilizar algo que já existia naquele contexto.

Giane resume esse impacto dizendo:

“Existe uma conexão na alma das pessoas com a língua.”

Ela conta ainda uma frase usada por uma das obreiras da base: quando Deus fala a língua da pessoa, Deus é percebido como próximo.

Essa experiência mostra uma das dimensões mais práticas da interculturalidade: aprender a comunicar de forma que a mensagem realmente possa ser recebida.

Jesus e o movimento de entrar na realidade do outro

Para Giane, o maior modelo desse movimento é Jesus.

Durante o episódio, ela chama atenção para a intencionalidade de Jesus ao assumir a forma humana, viver dentro de uma cultura, aprender uma língua e relacionar-se dentro daquele contexto.

“Jesus é o maior exemplo do missionário encarnado.”

Essa perspectiva muda a pergunta.

Em vez de perguntar apenas “como eu faço missão?”, talvez seja necessário perguntar: “Estou disposto a entrar na realidade do outro?”

Isso pode significar aprender uma língua.

Pode significar observar antes de falar.

Pode significar abrir mão de preferências.

Pode significar reconhecer que a forma como sempre fizemos algo não é necessariamente a única possibilidade.

A interculturalidade cria uma ponte justamente porque existe disposição de atravessá-la.

Uma missão que também transforma realidades

Na Guiné-Bissau, essa visão também aparece em iniciativas de justiça e transformação.

Giane relata como o contato com a realidade das mães no país despertou nela uma preocupação que acabou se tornando um projeto de maternidade escola.

Ao visitar hospitais e acompanhar a realidade das mulheres, ela começou a perceber necessidades que não podiam ser ignoradas.

Mesmo sem formação nessa área, passou a desenvolver, junto com outras pessoas, iniciativas relacionadas ao cuidado materno. O trabalho já inclui formação de doulas, enquanto a maternidade construída ainda estava sendo preparada para começar a funcionar no momento da gravação.

A história mostra que compreender uma cultura também significa enxergar suas dores e servir pessoas dentro de necessidades reais.

O chamado para atravessar a ponte

No fim da conversa, Giane dirige uma mensagem especialmente à Igreja brasileira.

Ela lembra primeiro da realidade dos povos indígenas dentro do próprio Brasil e depois amplia a reflexão para outras nações.

Segundo sua experiência treinando diferentes nacionalidades, brasileiros possuem características que podem facilitar a adaptação a determinados contextos.

Mas essa possibilidade também traz responsabilidade.

Giane relembra o movimento de Paulo ao levar o Evangelho além de seu próprio povo e convida a Igreja brasileira a reconhecer a oportunidade diante dela.

Talvez interculturalidade comece justamente aí: perceber que missão não é levar nossa cultura para todos os lugares.

É aprender.

Observar.

Ouvir.

Entrar na realidade do outro.

E construir uma ponte pela qual o Evangelho possa ser compreendido.

Se essa conversa despertou algo em você, assista ao episódio completo no YouTube e aprofunde essa reflexão.

Se você já está decidido a dar o próximo passo em missões, conheça a ETED e inscreva-se.

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