Uma mala preparada para 25 dias foi o começo de uma história que já atravessa mais de três décadas. No episódio 15 do The Waves Podcast, Cleo conta como deixou o Rio de Janeiro para servir como enfermeira voluntária em Porto Velho, sem imaginar que aquela experiência mudaria completamente a direção de sua vida.
Ela não chegou com um plano de longo prazo. Também não conhecia profundamente a realidade dos povos indígenas ou a vida missionária na região Norte. Chegou para atender uma necessidade concreta na área da saúde.
Enquanto servia, porém, começou a perceber que Deus também estava tratando de seu próprio coração.
Uma canção apresentada por um adolescente durante a campanha repetia o convite para levar o nome de Jesus. Pouco depois, Cleo decidiu permanecer para fazer a ETED. Durante o período teórico da escola, uma epidemia de gripe em uma comunidade indígena abriu espaço para que ela acompanhasse uma equipe até a aldeia.
Ao sobrevoar a floresta amazônica em um avião missionário, compreendeu que existiam povos debaixo daquela imensidão que também precisavam ser servidos.
Sua profissão, sua disponibilidade e uma sequência de passos simples começaram a construir uma vida inteira de missão.
O chamado pode começar com aquilo que já está nas suas mãos
Muitos jovens acreditam que precisam descobrir uma função totalmente nova antes de começar a servir em missões. A história de Cleo apresenta um caminho diferente.
Ela chegou a Porto Velho porque havia uma necessidade específica: a equipe precisava de uma enfermeira. Seus conhecimentos profissionais não foram um detalhe separado do chamado. Foram parte do caminho.
Nos primeiros anos, Cleo acompanhou questões de saúde enfrentadas por equipes que estavam no campo. Em uma época sem os meios de comunicação disponíveis atualmente, o contato acontecia por rádio. As comunidades eram chamadas para que as situações de saúde fossem verificadas e orientadas.
Ela também percorreu diferentes aldeias, ajudou a montar kits básicos de saúde e participou da preparação de missionários para lidar com necessidades que poderiam surgir durante o trabalho.
Ao falar com profissionais da área, Cleo faz um convite direto:
“Há um lugar muito especial em missões para que essas habilidades sejam colocadas nas mãos do Senhor.”
Essa experiência ajuda a ampliar nossa compreensão sobre vocação. A missão não é composta apenas por pregadores ou pessoas que trabalham diretamente com ensino bíblico. Ela também precisa de profissionais dispostos a servir com responsabilidade, conhecimento e amor.
Enfermagem, medicina, odontologia e outras habilidades podem responder a necessidades reais de equipes e comunidades.
O primeiro passo, portanto, pode não ser abandonar sua formação. Pode ser perguntar como aquilo que você já recebeu pode ser colocado a serviço de Deus e das pessoas.
Servir outro povo exige sensibilidade e disposição para aprender
O primeiro contato de Cleo com uma comunidade indígena revelou um mundo muito diferente de sua experiência como uma mulher criada no Rio de Janeiro.
Ela encontrou outra língua, outra organização social e outras formas de viver. Durante uma epidemia de gripe, passava pelas casas e malocas realizando curativos e administrando medicamentos.
Cleo também sofria com reações alérgicas às picadas dos muitos mosquitos da região. Ao perceber sua pele inflamada, uma senhora da comunidade começou a acompanhá-la durante os atendimentos. Agachada ao seu lado, usava um leque para afastar os insetos.
A missionária que havia chegado para cuidar também estava sendo cuidada.
Aquela experiência mostrou que o relacionamento com uma comunidade não acontece em apenas uma direção. Existe troca, acolhimento e construção de vínculos. Em alguns lugares onde permaneceu por mais tempo, Cleo foi adotada por famílias e passou a ter irmãos, mães e parentes dentro da organização social do povo.
Esses relacionamentos também ensinaram que missão transcultural exige cuidado.
Quem entra em outra cultura encontra costumes que talvez não compreenda imediatamente. Isso não significa que aquelas pessoas estejam erradas ou sejam inferiores. Significa que carregam outra história e interpretam a vida a partir de referências diferentes.
“O outro povo não é menos porque ele não fala português.”
Para Cleo, seguir Jesus não é se tornar ocidental ou abandonar a própria identidade. O Evangelho pode interagir com uma cultura sem destruí-la.
Os povos possuem seus estilos musicais, seus conceitos de beleza, suas línguas e suas formas de expressar o que compreendem sobre Deus. Quando conhecem Jesus, podem adorá-lo por meio dessa riqueza.
“Quando eles conhecem Jesus, eles vão com sua cultura adorando a Jesus.”
Essa compreensão confronta uma atitude comum: confundir o Evangelho com nossos próprios costumes. O missionário precisa aprender a separar a mensagem de Jesus das preferências culturais que carrega.
Servir de forma respeitosa envolve preparação transcultural, escuta e humildade para reconhecer que também temos muito a aprender.
A Palavra precisa chegar na língua e na forma que o povo compreende
A língua é uma das principais barreiras enfrentadas no trabalho com povos indígenas e outras comunidades. Ela também pode se transformar em uma das maiores demonstrações de respeito.
Cleo explica que os missionários precisam estar dispostos a aprender a língua falada pelo povo. A mensagem não deve chegar apenas em um idioma estrangeiro, dependendo de pessoas de fora para ser compreendida.
O trabalho de tradução da Bíblia tem ocupado um espaço importante na atuação da JOCUM Porto Velho. Segundo Cleo, a base participa de projetos envolvendo diferentes línguas, tanto no Brasil quanto em países africanos de língua portuguesa.
Um ponto central desse trabalho é o protagonismo do próprio povo.
“O tradutor indígena é o tradutor. Nós somos os facilitadores do processo.”
Isso significa que a tradução não é simplesmente produzida por uma equipe externa e entregue à comunidade. Pessoas do próprio povo participam ativamente, compreendendo, traduzindo e se apropriando da mensagem.
A tradução oral também tem ampliado as possibilidades de acesso.
Muitas comunidades possuem uma tradição marcada pela oralidade. O conhecimento, as histórias e os ensinamentos são preservados e transmitidos por meio da escuta e da repetição.
Cleo conta a experiência de uma mulher de Moçambique que ouviu uma tradução durante uma reunião de checagem. Depois de prestar atenção ao conteúdo, ela conseguiu repetir todo o primeiro capítulo que havia escutado.
A história mostrou a força da memória oral e a importância de comunicar a Palavra de maneira coerente com a forma como cada comunidade aprende.
A própria Bíblia foi transmitida oralmente em diferentes momentos. Por isso, oferecer uma tradução em áudio não é uma alternativa inferior à escrita. É uma maneira de permitir que pessoas escutem, memorizem, compartilhem e ensinem.
Para quem imagina que a tradução bíblica é um trabalho inacessível, Cleo deixa um encorajamento: a capacitação continua sendo importante, mas existem novas formas de participação e caminhos que podem estar mais próximos do que parecem.
O convite é buscar, conhecer o movimento e descobrir como colaborar para que mais povos tenham acesso à Palavra de Deus em sua própria língua.
Conclusão
A trajetória de Cleo mostra que o chamado pode começar com uma oportunidade simples de servir. Ela chegou a Porto Velho como enfermeira voluntária, levou uma mala para 25 dias e encontrou um caminho que atravessou sua profissão, seus relacionamentos e sua disposição para aprender com outros povos.
Missões indígenas e rurais envolvem desafios de distância, acesso, saúde, comunicação e tradução. Também exigem respeito pelas culturas, preparação transcultural e humildade.
Não se trata de chegar para apagar identidades. Trata-se de servir para que cada povo tenha a oportunidade de conhecer Jesus e expressar sua fé a partir de sua própria língua e cultura.
Se essa conversa despertou algo em você, assista ao episódio completo no YouTube e aprofunde essa reflexão.
Se você já está decidido a dar o próximo passo em missões, conheça a ETED e inscreva-se.